Prisões de cristãos no Irã quase dobram, afirma relatório

Entre os casos citados está o de uma cristã grávida condenada a 16 anos de prisão no Dia Internacional da Mulher

Sexta, 20 de Fevereiro de 2026

Márcia Pinheiro


Prisões de cristãos no Irã quase dobram, afirma relatório

Imagem: Ilustrativa / Freepik

Um relatório divulgado na quarta-feira (19) por Article18, Portas Abertas, Christian Solidarity Worldwide e Middle East Concern aponta que 254 cristãos foram presos no Irã em 2025 sob acusações relacionadas à fé ou a atividades religiosas — quase o dobro dos 139 registrados em 2024.

Segundo o documento, intitulado “Bodes expiatórios: violações dos direitos dos cristãos no Irã”, cerca de 90% das acusações foram fundamentadas no Artigo 500 do Código Penal iraniano, que criminaliza a “propaganda contrária à sagrada religião do Islã”.

O número de cristãos que cumpriram penas de prisão, exílio ou trabalho forçado também aumentou: foram 57 casos em 2025, contra 25 no ano anterior. Ao final do ano, 43 cristãos ainda permaneciam presos e pelo menos 16 estavam em prisão preventiva.

Embora o total de condenações tenha sido menor — 73 em 2025, ante 96 em 2024 — a soma das penas aplicadas aumentou de 263 para 280 anos, indicando maior rigor nas sentenças. Pelo menos 11 cristãos receberam penas de 10 anos ou mais. As autoridades também impuseram nove anos de exílio e 249 anos de restrições a direitos como saúde, emprego e educação.

Após a chamada “guerra de 12 dias” entre Irã e Israel, entre 13 e 25 de junho, cinco cristãos foram acusados com base em uma nova lei de espionagem criada após o conflito. As penas somadas ultrapassam 40 anos de prisão.

O relatório destaca um “aumento acentuado” nas prisões após o conflito, citando comunicado do Ministério da Inteligência iraniano que mencionou a “neutralização” de 53 “elementos treinados”, em referência a cristãos evangélicos.

Também foram registrados casos de confisco de bens pessoais, como Bíblias e publicações cristãs, demissão de um oficial do Exército após conversão ao cristianismo e o encaminhamento judicial de cinco convertidos a “clínicas de tratamento de seitas” para serem reconduzidos ao Islã.

O documento relata ainda maus-tratos a detentos cristãos, incluindo negação de atendimento médico, tortura psicológica e espancamentos. Entre os casos citados está o de uma cristã convertida grávida condenada a 16 anos de prisão no Dia Internacional da Mulher, além de relatos de detentos impedidos de comparecer a funerais de familiares e de problemas graves de saúde durante o encarceramento.

A repressão também atingiu cristãos envolvidos na distribuição de Bíblias: ao menos 21 receberam penas de prisão, além de multas, exílio e restrições sociais.

As organizações recomendam a reabertura da Sociedade Bíblica no país, fechada desde 1990, e cobram que o governo iraniano cumpra o Artigo 18 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que garante liberdade religiosa.

O relatório também denuncia discurso de ódio contra cristãos e outras minorias religiosas, incluindo a divulgação, pela mídia estatal, de vídeos com imagens de cristãos presos, reuniões no exterior e suposto contrabando de Bíblias.

Entre outras recomendações, o documento pede a libertação incondicional de cristãos detidos por motivos religiosos, a reabertura de igrejas fechadas à força e garantias para que cristãos de língua persa possam praticar a fé sem risco de prisão.

O Irã ocupa a 10ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026, elaborada pela organização Portas Abertas, que classifica os 50 países onde é mais difícil ser cristão.